O avanço dos Fiagros, fundos ligados ao agronegócio negociados na bolsa, tem se consolidado como uma alternativa aos mecanismos tradicionais de financiamento do setor. Hoje, o agro brasileiro depende principalmente do Plano Safra, mas a escala que o país atingiu (3º maior produtor e maior exportador líquido de alimentos) passou a exigir novas fontes de capital.
“A agricultura brasileira cresce muito mais rápido que a disponibilidade orçamentária”, disse Rogério Boueri, economista e diretor da recém-fundada ABFiagro. “O plano [safra] está se esgotando, é vítima do próprio sucesso”, afirmou ao Poder360.
Em junho, os Fiagros vão completar 5 anos. O estoque de investimentos é de aproximadamente R$ 40 bilhões. Em média, são R$ 8 bilhões por ano investidos no setor. Nesse cenário, Boueri defende ampliar o uso do Fiagro e a participação do mercado de capitais no financiamento do setor.
A proposta passa por reorganizar o papel do Estado no crédito rural, hoje baseado em subsídios amplos. Além disso, permitir novas ações, como compra de dívidas de agricultores, mecanismo presente em outras áreas da economia.
“O recurso do governo deve ser cada vez mais focado nas operações que têm externalidade, como a agricultura familiar e iniciativas com impacto ambiental positivo.”
A proposta é liberar o potencial do mercado de capitais para financiar, sobretudo, a grande agricultura. Com isso, o recurso público, que não cresce no mesmo ritmo dos negócios, tende a se concentrar em operações com maior externalidade.
Como funciona o Plano Safra?
Vamos supor a Selic em 15%. No Plano Safra, o produtor rural acessa crédito a 10%. A diferença de 5 pontos percentuais, somada a cerca de 2% de custos administrativos, é bancada pelo governo. O agricultor paga os 10% contratados, enquanto os outros 7% vêm do orçamento público, via Tesouro Nacional.
Como o Fiagro chega na sociedade?
O Fiagro tem várias modalidades, mas funciona como uma ponte entre a produção agropecuária e a poupança popular. Com cerca de R$ 10, qualquer pessoa pode comprar uma cota na bolsa.
Em quais modalidades o fiagro se divide?
Há várias modalidades. Na criação, a CVM estruturou 3 principais: FIP (participações), FIDC (direitos creditórios) e imobiliário. O FIP investe em empresas do setor; o FIDC compra dívidas de produtores; e o imobiliário adquire terras.
Qual o estoque de Fiagros no mercado de capitais?
Algo entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões, com espaço para crescer, apesar da expansão recente. Os FIIs levaram de 10 a 15 anos para ganhar tração; o Fiagro tem cerca de 5 anos.
Qual o fluxo anual dos Fiagros?
Os Fiagros não crescem de forma linear. Mudanças nas regras de provisionamento bancário impulsionaram o mercado em determinados momentos, tornando esses ativos mais atrativos para os bancos.
A relação com a taxa de juros
O princípio é o mesmo nos Fiagros e nos FIIs. Suponha um investimento de R$ 100: o Fiagro pode oferecer CDI +10, mas com mais risco. Já a NTN-B, em alguns momentos, paga CDI +7, com risco bem menor.
Impacto da guerra no golfo Pérsico
Há impacto negativo, sobretudo pelo lado dos fertilizantes. A guerra no golfo afeta insumos como nitrogênio e enxofre, usados nos fosfatados. No Brasil, porém, o efeito é menor no caso do nitrogênio, já que a soja utiliza fixação biológica.
Como o agro antevê o fim dessa disputa?
A logística tende a ficar mais cara, mas o agro já busca alternativas. Um exemplo é o uso de rotas via Turquia, com entrada pelo Mediterrâneo e transporte terrestre. Fica mais caro? Fica. Mas chega.
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